sexta-feira, 20 de julho de 2012

Testemunhas

por Jorge Candeias


Caí na asneira de abrir a porta sem primeiro espreitar quem lá vinha.
Eram duas ovelhas, muito empertigadas, muito eretas sobre as patas traseiras. Uma trazia uns oculinhos redondos empoleirados sobre o focinho; a outra transportava uma pasta encaixada entre uma das patas dianteiras e o corpo coberto de alvos caracóis lanudos. Fiquei a olhá-las, embasbacado, sem reação.
— Boa ta-a-a-a-arde, irmão — começou a dos oculinhos. — Andamos a espalha-a-a-a-a-ar a mensa-a-a-a-a-agem do Senhor. Se tive-e-e-e-e-er um minutinho…
Recompus-me num instante. Tenho observado com frequência que existe uma estranha magia em certas palavras e expressões.
— Lamento imenso — contrapus, apressado — mas não tenho. Apanharam-me mesmo a meio do almoço. Um ensopado de carneiro de-li-ci-oso. Com licença.
E fechei a porta.
Imaginam o alívio?

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